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Telefones na cabeça

Martha Medeiros

Existe um livrinho de 140 páginas, em formato de bolso, que guardo como quem guarda um anel da avó que já morreu ou uma foto do primeiro namorado. Este livro chama-se “A lista de Ailce”, de Herbert de Souza, o Betinho (é Ailce mesmo, e não Alice). Foi lançado em 1996 pela Companhia das Letras e talvez não esteja mais em catálogo, o que seria uma pena. É a história da vida – melhor dizendo, da morte – dos moradores de Bocaiúva, cidade mineira onde Betinho passou a infância. Certo dia ele pediu para que sua prima fizesse uma lista de todos os moradores conhecidos que já haviam falecido, e ela fez. Através desta lista, Betinho produz, no livro, um inventário bem-humorado dos parentes, dos padres, dos mendigos, das mulheres “de vanguarda” e até mesmo de um trem que deixou de existir, tudo com uma ternura que hoje a gente só encontra se procurar com muito empenho e fé, e nem me pergunte onde, porque ternura virou uma espécie de mico-leão-dourado. Uma das partes mais comoventes do livro é quando ele fala – ou melhor, não fala – dos irmãos Henfil e Chico, tamanha a dor da ausência. Sobre eles, só diz uma coisa: “Eram os dois telefones que eu sabia de cor”.

Quando eu era menina, sabia todos os telefones das amigas de cabeça, e sabia também os das primas e os dos tios, e até os de alguns vizinhos, para o caso de alguma emergência, nem que a emergência fosse avisar que o pano de prato pendurado no varal lá de cima caiu na nossa área de serviço. Naquela época eram só cinco dígitos, moleza. O nosso era 2-6851. Depois virou 22-6851 e depois se expandiu ainda mais, todos os números esticaram, porém seguiram sendo discados, um a um, e assim mantinham-se decorados. Até que se inventou o celular, e com ele uma memória para substituir a nossa. Hoje não sei mais nenhum telefone de cor. Mal sei o número aqui de casa.

Se quero ligar pra Katia, uma das minhas melhores amigas, não disco seu número, apenas teclo no K, o nome dela aparece na tela do celular e a ligação se completa. Quando éramos crianças, o número dela era 2-4325, depois 22-4325 e hoje é outro, este que não vou lembrar nem que a vaca tussa e implore por uma aspirina.

Às vezes a letra K completa a ligação para eu falar com a Karin, outra que é uma amigona-irmã, e que também não faço a menor ideia por qual número atende. Se eu estiver na rua, sem celular, e precisar falar com elas, vou continuar precisando, pois ir até o telefone público mais próximo não vai adiantar: vou ficar olhando para o aparelho com cara de sei lá.

Tenho em casa uma agenda, destas com o alfabeto descendo em ordem vertical pela borda: A, B, C, D... Ali mantenho todos os números dos amigos escritos à mão, mas consulto muito pouco. Está na hora de eu voltar a buscar ali os números de quem eu gosto, e de discá-los um por um, pacientemente, até guardá-los na cabeça, nem que seja apenas para provar que minha memória é mais afetiva do que a do celular, e para homenagear as pessoas que são tão importantes na minha vida que sei seus telefones de cor.


Domingo, 25 de junho de 2006.



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